Que perfeição! Lábios carnudos, realçados por um brilhante batom cor vermelho-alaranjado que contrastava de maneira intrigante com seus olhos muito verdes e sua pele bronzeada pelo sol litorâneo diário... Descendo um pouco (e era impossível não faze-lo) destacava-se o mais perfeito pescoço nunca desenhado nas mais famosas obras primas, que era o caminho mais curto e instigante para se chegar àqueles enormes seios, mas nem por isso menos atraentes e graciosos. Dali para a cintura (e que cintura!) era como passear entorpecido pelo campo das margaridas, com seus cheiros e texturas. Complementando aquela escultura sobre-humana, destacavam-se seus indescritíveis quadris seguidos bem de perto por um par de COXAS (assim mesmo em maiúsculas) e inacreditáveis panturrilhas. Para finalizar, como não falar de seus pequeninos pés, travessos, delicados... Um metro e setenta e cinco de destilada feminilidade realçada por seus longos e encaracolados castanho-claros cabelos.
Quem a trouxe pra gente ver foi o Oswaldo que, quando interrogado sobre sua mulher, explicou-nos honestamente. Disse que a idéia havia partido dela e era para “apimentar a relação”.
Mas antes de seguirmos adiante nesta história, conheçamos o Oswaldo...
Sujeito que veio “lá de baixo” (como se costuma dizer) e conseguiu tudo com muito suor e sacrifício. Como esposa, contraiu a qual pôde, preocupado estava com a solidão e com as levianas, já que firme e certo era acerca de seu futuro, sob o jugo de sua ambição. E até que saiu ganhando, sobretudo no quesito “confiabilidade”. O que nunca lhe deixou muito sossegado foram as idéias “modernosas” de sua cônjuge, principalmente no tocante à intimidade – achava-a inventiva demais para o seu gosto. Balanceadas as diferenças, até podia intitular-se “feliz”, já que nunca havia dado muita importância para essas coisas de sexo. Ela não era bonita, mas agradava-o amiúde. Do mais, eram muito mais freqüentes seus cansaços que suas “obrigações” de marido. E talvez fruto dessa situação fosse aquela idéia entregue pela sua esposa.
O fato é que, baixado via internet e impresso em folha sulfite, o anúncio dizia: “homens e mulheres para todos os gostos! Acesse o link abaixo, digite o biótipo de sua preferência e visualize gratuitamente uma amostra de nossos produtos.”.
Mais para agradar a esposa, após dias de relutância, aceitou (embora diante da fotografia feminina exposta na tela do computador houvesse sentido um certo furor inédito e incompreensível e talvez por isso, algures ignorado). Sua esposa foi precisa e incisiva: negro, altura mínima 1,85m., traços refinados, inteligência média, musculatura definida sem exageros e órgão sexual com exagero; carinhoso, calmo e inventivo. Ele, pela dificuldade de adaptação a novas situações, sugeriu somente: bonita e gostosa. Mas gostou do retrato de corpo inteiro reluzente na tela de seu monitor.
Dias após, aquela figura já não era só um retrato como tantos outros guardados na pasta “minhas imagens”. Ao contrário, era aquela musa, motivo de ousadias enrubescedoras quando apresentada em público, mesmo escoltada com avidez pela figura mórfica e sisuda de Oswaldo. O prazer desse desfile foi-lhe sensível à pele quando finalmente pôde exibi-la em reunião informal e descontraída, no bar, a nós, seus subalternos colegas de empresa (faça-se saber que da qual era ele o dono). O Oswaldo, que sempre nos humilhou para que pudéssemos ter noção do quanto, segundo ele, éramos seres incapazes e inferiores e também para que isso contribuísse para o aumento de seu patrimônio; ele, que tantas vezes, oportunamente nos chamou de amigos e para o qual na maioria delas fingimos também o sermos, agora exibido que estava, esfregava aquele “sonho de consumo” com todas as suas inimagináveis curvas e odores em nossas vistas e falos, fazendo-nos sentir o peso de todas as nossas frustrações. E nós reagíamos como leões famintos a apreciarmos de dentro de nossas jaulas o cervo imponente desfilando suas fartas ancas, sabendo-se intocável e inatingível. Entorpeceu-nos e entorpeceu-se de afrodizíacos álcoois e perfumes de fêmea e depois partiu, mas não sem antes pagar-nos todas e a próxima rodada para mais um bocadinho de humilhação.
Já em sua casa, cada qual em um quarto diferente, deleitaram-se gemendo a perder de vista, Oswaldo e sua esposa. Uma névoa de sexo invadiu, como jamais, aquela residência.
Mas no silêncio da noite, quando todos jaziam desfalecidos pelas exaustivas horas de pornofilia, encontraram-se, em surdina, aqueles dois pérfidos seres e amaram-se possuídos pelo mais puro amor erótico.
A maior descoberta de minha vida
A maior descoberta de minha vida
Descobri que o que sou mesmo é “INVENTOR”
Invento consertos e soluções
Invento músicas, letras e instrumentos
Invento artes plásticas e reinvento coisas do lixo
Invento poesias e poéticas...
Invento tanto, todos os dias,
Que desconfio ser eu minha maior invenção.
sexta-feira, 24 de setembro de 2010
segunda-feira, 23 de agosto de 2010
quarta-feira, 19 de maio de 2010
Músicas
Ilhas de mim
Penso,
As águas correm e o vácuo se forma...
Isolou-me de mim mesmo o cicliquismo das marés.
Sou a ilha que estou...
... Ao longe ouço tambores
... Sinais de fumaça
- Há um incêndio que se apagou!
Ser-me,
Saudades do meu mundo...
É egoisticamente justo.
Ontem nele era o amanhã...
O egoísmo ao sair
Vieram as ondas, os vácuos e a explosão...
As ilhas, novas ilhas e novas ilhas...
E todo o trabalho evitável:
- Colar, me colar e decolar.
Penso,
As águas correm e o vácuo se forma...
Isolou-me de mim mesmo o cicliquismo das marés.
Sou a ilha que estou...
... Ao longe ouço tambores
... Sinais de fumaça
- Há um incêndio que se apagou!
Ser-me,
Saudades do meu mundo...
É egoisticamente justo.
Ontem nele era o amanhã...
O egoísmo ao sair
Vieram as ondas, os vácuos e a explosão...
As ilhas, novas ilhas e novas ilhas...
E todo o trabalho evitável:
- Colar, me colar e decolar.
quinta-feira, 29 de abril de 2010
Shopping Sem Ter
Peguem suas ofertas
A porta já se abriu,
Só não vê quem não quer,
Tudo está lá:
Montes e montes cheirando a novo – mofo de suas velhas pobrezas.
Viva na fartura!
Viva, é fartura!
Morra, porque pra mim falta.
Sonhando um sonho podre enquanto ainda há tempo de sonhar
Sonhando um sonho pobre quando só há tempo pra sonhar
Quisera outros planos
Quisera outras vidas...
Agora catem as suas ofertas, hipocrisias e fantasias ruins
E quando sair não se choque com o meu frio
Enquanto ainda eu estiver aqui.
A porta já se abriu,
Só não vê quem não quer,
Tudo está lá:
Montes e montes cheirando a novo – mofo de suas velhas pobrezas.
Viva na fartura!
Viva, é fartura!
Morra, porque pra mim falta.
Sonhando um sonho podre enquanto ainda há tempo de sonhar
Sonhando um sonho pobre quando só há tempo pra sonhar
Quisera outros planos
Quisera outras vidas...
Agora catem as suas ofertas, hipocrisias e fantasias ruins
E quando sair não se choque com o meu frio
Enquanto ainda eu estiver aqui.
quinta-feira, 8 de abril de 2010
Prece oriental
Saúdo este dia nascente sem mãe
Saldo do ontem
Na espera do porvir
Que eu possa saldar
Se aqui estiver
A saudade do tempo que perdi
Que eu possa querer como quando criança querendo comer
Que o sal venha fácil e não seja mínimo
E que venha com o mar
Que eu consiga por hoje administrar as misérias
E que amanhã esteja farto
Que o caminho se abra
E seja preciso o meu oriente
Saúdo este dia nascente sem mãe
Saldo do ontem
Na espera do porvir
Que eu possa saldar
Se aqui estiver
A saudade do tempo que perdi
Que eu possa querer como quando criança querendo comer
Que o sal venha fácil e não seja mínimo
E que venha com o mar
Que eu consiga por hoje administrar as misérias
E que amanhã esteja farto
Que o caminho se abra
E seja preciso o meu oriente
segunda-feira, 29 de março de 2010
Pão e ciclo
A roda começou a girar na ladeira
O vento chegou a gelar na canseira
O topo voltou a ficar mais pra beira
O sangue passou a later pela
O rastro bastou pra gerar a canseira
O sonho arrotou a diária rotina
O golpe feriu a quem não se ilumina
O homem que até a si próprio extermina
O louco que é torto da alma e n’atina
O cego que sente cheiro e imagina
O fato que é previsão e n’acontece
O ato que pede atenção não merece
O solo que quer união se enfraquece
O ouro quando é cotação enriquece
Descobre quanta tentação tem na prece
O vento chegou a gelar na canseira
O topo voltou a ficar mais pra beira
O sangue passou a later pela
O rastro bastou pra gerar a canseira
O sonho arrotou a diária rotina
O golpe feriu a quem não se ilumina
O homem que até a si próprio extermina
O louco que é torto da alma e n’atina
O cego que sente cheiro e imagina
O fato que é previsão e n’acontece
O ato que pede atenção não merece
O solo que quer união se enfraquece
O ouro quando é cotação enriquece
Descobre quanta tentação tem na prece
sábado, 13 de março de 2010
Tanto tempo
Quanto tempo perdido
Quantas perdas, quantas vozes tímidas
Quanto mel derramado
Quantas merdas, quantas frases cínicas
Quantos tormentos, quantas mortes vívidas
Tantas gentes, tantas vezes frígidas
Tanto tempo perdido
Nas certezas de minhas frases tímidas
Tanto fel declamado
Tantas rezas, tantas aves pudicas
Escandalosamente restos como fossem dívidas
Quantas vestes pra nudezes tísicas
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