A maior descoberta de minha vida

A maior descoberta de minha vida


Descobri que o que sou mesmo é “INVENTOR”

Invento consertos e soluções

Invento músicas, letras e instrumentos

Invento artes plásticas e reinvento coisas do lixo

Invento poesias e poéticas...

Invento tanto, todos os dias,

Que desconfio ser eu minha maior invenção.

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quinta-feira, 26 de maio de 2011

Delírio e Morte

Passou a mão pelos cabelos – estavam ensebados. Pelo número de vezes que dormiu e acordou, desde o último banho, calculou quinze dias. Devia ter aproveitado melhor aquela oportunidade, seu desleixo agora era denunciado pela resistência oposta a seus dedos rumo ao couro cabeludo (há muito carente de massagens ternas). Breve momento de lucidez (ou de falta de clareza, pensaria acerca de outros da mesma laia em tempos áureos de exercício de seu mestrado em filosofia na universidade do estado). Voltou-se para Flor, sua cadela e companheira; a este ponto já havia recuperado seu habitual estado psíquico alucinatório. Observou-a atentamente e ouviu dela um grito de clamor – não tinham que aturar, nem ela nem ele, os olhares todos a lhe atribuírem poderes de rei – nobre sim, como todos de seu totem! – Mas isso não haveria de ser motivo suficiente para tanta pompa e tratamentos diferenciados. Levantou-se e gritou um som extraído do desespero: – Me deixem em paz, eu nada tenho a lhes dizer! – deitou-se novamente e dormiu. Sonhou com o reinado que lhe fora concedido por hereditariedade e que há muito ficara sem seu soberano, já que resolvera explorar terras longínquas. Em seu sonho também estava seu povo, tão desprovido do conforto do qual agora desfrutava descaradamente.
Acordou já decidido a voltar para sua gente, para seu reino.
Ao se preparar para a insólita viagem quis somente o necessário. Escolheu dentre suas posses um casaco, seu cinto (de corda de sisal), sua moringa (de garrafa PET) e seu cajado de cedro (de cabo de vassoura de piaçava). Chamou, em ordem única, sua companheira e partiram.
Cada novo lugar e cada novo rosto diante de seus olhos eram novos mundos a serem explorados, ultrapassados. Depois de algum caminhar deteve-se estupefato. Conseguiu suportar somente alguns instantes antes de se precipitar violentamente em direção ao sujeito que lhe afrontava com gestos obscenos, livro de magias em punho, discursando a respeito de um deus que não era o seu. Desferiu-lhe golpes certeiros e ininterruptos com seu cajado, ferindo-lhe o crânio e os braços. Foi contido por súditos uniformizados que chegaram em carruagens cinzentas vindas não sabia de onde. Jogaram-no na masmorra. Bateram-lhe. Aplicaram-lhe choques elétricos por todo o corpo. Fizeram-no retornar de seu mundo de rei rebelado. Voltou a ser Lúcido dos Anjos – personagem de seus pesadelos. Voltou a ser escravo. Voltou a ser o professor de filosofia. Voltou a ser RG e CPF. Voltou a perder-se. Adormeceu.
Um beijo terno em sua face fê-lo despertar. Sua companheira agora já não era Flor – a princesa da qual guardava vagas lembranças – era Lírio, uma bela mulher de plástico, pensava. Por mais que se esforçasse (e nem era o caso) jamais alcançaria a profundidade no olhar da qual esbanjava Flor. Entorpecia, sim, mas pela feitiçaria de sua beleza vazia e passageira. Pelos olhos de Flor via-se a grandeza da alma do universo; via-se Deus. Essas reflexões o entristeceram.
Estava atordoado, tudo à sua volta era branco e incomodamente quieto. Só a ansiedade de sua esposa quebrava o mórbido silêncio daquele lugar: - te procuraram por toda a parte, achávamos que havia morrido! – desabafou histérica.
Talvez tivesse sido melhor... Talvez houvesse mesmo morrido. Talvez aquela “consciência” fosse uma nova encarnação no mesmo corpo. Lembrou-se de suas habilidades filosóficas.
- seu filho há meses não dorme e não come direito. Tem tido pesadelos horríveis!
Era verdade, tinha um filho! De herança deixou-lhe os pesadelos, pensou. Entristeceu-se um pouco mais. Tentou lembrar-se de outros detalhes de sua vida mas algo dentro de si negou-se a levar tal empreitada adiante. Desistiu, dormiu, surtou. Era seu reino novamente lhe chamando. Era seu povo clamando por seu soberano pródigo. Era preciso libertar-se.
Voou pela janela, para junto de sua verdadeira companheira. Novamente estavam na estrada. Saltitaram leves e felizes pelas mais fabulosas trilhas, em fantásticas florestas, ora de vidro, ora de pedras, ora de luzes. Desejou do fundo de sua alma não ter mais aqueles sonhos com aquela família de plástico atormentando-lhe os pensamentos. A liberdade não está na dor! Está onde sempre esteve, seja alcançada ou não. Mirou sua alegre companheira  sem uma gota sequer de consciência, invejou-a.
Beijos molhados a removerem as remelas de seu olho – assim foi despertado naquela tarde nublada de uma estação qualquer. Mais uma vez recomeçara, lembrou-se de seu reino e de seu reinado distantes, teve preguiça de continuar. Calou sua consciência por não conseguir reconhecê-la em sua geografia.
Da próxima vez que dormisse ou acordasse (já não sabia mais) não voltaria a se deparar com aquelas atrocidades. Como pode alguém suportar tamanha tortura: família, filhos, domingos encaixotados, empoltronados, felicidades fabricadas... NUNCA!
Caminhou durante três dias mais. Deparou-se finalmente com o portal, com inscrições claras em seu arco superior, como em suas visões: “Reino de paz eterna”, entrou. Todos mortos! Milhares e milhares de túmulos. Chorou, estava fraco, as lágrimas escassas... Teve forças para entregar suas últimas posses ao barqueiro das águas ausentes. Uma cova aberta o aguardava. Os beijos molhados de sua companheira foram ficando cada vez mais distantes. Tudo foi se transformando progressivamente em uma espécie de programa televisivo adornado por flash-backs de alucinações controladas por minúsculas pílulas, administradas regularmente de tempos em tempos. Do lado de fora, somente um corpo inerte teimando em manter-se funcionando.

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

O conto dos bonecos de plástico

Que perfeição! Lábios carnudos, realçados por um brilhante batom cor vermelho-alaranjado que contrastava de maneira intrigante com seus olhos muito verdes e sua pele bronzeada pelo sol litorâneo diário... Descendo um pouco (e era impossível não faze-lo) destacava-se o mais perfeito pescoço nunca desenhado nas mais famosas obras primas, que era o caminho mais curto e instigante para se chegar àqueles enormes seios, mas nem por isso menos atraentes e graciosos. Dali para a cintura (e que cintura!) era como passear entorpecido pelo campo das margaridas, com seus cheiros e texturas. Complementando aquela escultura sobre-humana, destacavam-se seus indescritíveis quadris seguidos bem de perto por um par de COXAS (assim mesmo em maiúsculas) e inacreditáveis panturrilhas. Para finalizar, como não falar de seus pequeninos pés, travessos, delicados... Um metro e setenta e cinco de destilada feminilidade realçada por seus longos e encaracolados castanho-claros cabelos.
Quem a trouxe pra gente ver foi o Oswaldo que, quando interrogado sobre sua mulher, explicou-nos honestamente. Disse que a idéia havia partido dela e era para “apimentar a relação”.
Mas antes de seguirmos adiante nesta história, conheçamos o Oswaldo...
Sujeito que veio “lá de baixo” (como se costuma dizer) e conseguiu tudo com muito suor e sacrifício. Como esposa, contraiu a qual pôde, preocupado estava com a solidão e com as levianas, já que firme e certo era acerca de seu futuro, sob o jugo de sua ambição. E até que saiu ganhando, sobretudo no quesito “confiabilidade”. O que nunca lhe deixou muito sossegado foram as idéias “modernosas” de sua cônjuge, principalmente no tocante à intimidade – achava-a inventiva demais para o seu gosto. Balanceadas as diferenças, até podia intitular-se “feliz”, já que nunca havia dado muita importância para essas coisas de sexo. Ela não era bonita, mas agradava-o amiúde. Do mais, eram muito mais freqüentes seus cansaços que suas “obrigações” de marido. E talvez fruto dessa situação fosse aquela idéia entregue pela sua esposa.
O fato é que, baixado via internet e impresso em folha sulfite, o anúncio dizia: “homens e mulheres para todos os gostos! Acesse o link abaixo, digite o biótipo de sua preferência e visualize gratuitamente uma amostra de nossos produtos.”.
Mais para agradar a esposa, após dias de relutância, aceitou (embora diante da fotografia feminina exposta na tela do computador houvesse sentido um certo furor inédito e incompreensível e talvez por isso, algures ignorado). Sua esposa foi precisa e incisiva: negro, altura mínima 1,85m., traços refinados, inteligência média, musculatura definida sem exageros e órgão sexual com exagero; carinhoso, calmo e inventivo. Ele, pela dificuldade de adaptação a novas situações, sugeriu somente: bonita e gostosa. Mas gostou do retrato de corpo inteiro reluzente na tela de seu monitor.
Dias após, aquela figura já não era só um retrato como tantos outros guardados na pasta “minhas imagens”. Ao contrário, era aquela musa, motivo de ousadias enrubescedoras quando apresentada em público, mesmo escoltada com avidez pela figura mórfica e sisuda de Oswaldo. O prazer desse desfile foi-lhe sensível à pele quando finalmente pôde exibi-la em reunião informal e descontraída, no bar, a nós, seus subalternos colegas de empresa (faça-se saber que da qual era ele o dono). O Oswaldo, que sempre nos humilhou para que pudéssemos ter noção do quanto, segundo ele, éramos seres incapazes e inferiores e também para que isso contribuísse para o aumento de seu patrimônio; ele, que tantas vezes, oportunamente nos chamou de amigos e para o qual na maioria delas fingimos também o sermos, agora exibido que estava, esfregava aquele “sonho de consumo” com todas as suas inimagináveis curvas e odores em nossas vistas e falos, fazendo-nos sentir o peso de todas as nossas frustrações. E nós reagíamos como leões famintos a apreciarmos de dentro de nossas jaulas o cervo imponente desfilando suas fartas ancas, sabendo-se intocável e inatingível. Entorpeceu-nos e entorpeceu-se de afrodizíacos álcoois e perfumes de fêmea e depois partiu, mas não sem antes pagar-nos todas e a próxima rodada para mais um bocadinho de humilhação.
Já em sua casa, cada qual em um quarto diferente, deleitaram-se gemendo a perder de vista, Oswaldo e sua esposa. Uma névoa de sexo invadiu, como jamais, aquela residência.
Mas no silêncio da noite, quando todos jaziam desfalecidos pelas exaustivas horas de pornofilia, encontraram-se, em surdina, aqueles dois pérfidos seres e amaram-se possuídos pelo mais puro amor erótico.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Masturbação

Descobriu aquele inusitado prazer na cozinha da casa de uma amiga, porém, nunca teve tendências exibicionistas, ao contrário, sempre teve dificuldades com o público, até com as mulheres, escassas em sua vida. Desde criança se valeu do intelecto para as relações mais próximas. Descobriu primeiro a habilidade matemática, anos depois a eloqüência retórica e por fim a filosofia. Mas não gostava muito das profundidades, apesar de introspectivo. Preferia ocupar-se, em momentos solitários, em hipotetizar artimanhas para impressionar e sustentar-lhe o status de ser inteligente. O que não percebia eram os comentários, em surdina, classificando-o no grupo dos pseudo-intelectuais metidos a filósofos do botequim de sua iniciação no álcool e nas drogas... Encontros semanais recheados de descobertas e reflexões interessantíssimas que eram inevitavelmente apagadas pela ressaca da manhã seguinte.
Mas naquela cozinha, depois de algumas cervejas e do ângulo privilegiado em relação à poltrona da amiga, que lhe permitia enxergar toda a extensão de suas coxas e parte de sua minúscula calcinha vermelha, foi que descobriu aquele estranho prazer. A masturbação havia já descoberto aos onze anos. Mas aquilo estava para muito além... o medo... o frio na barriga...
A partir deste episódio passou a masturbar-se nos lugares mais incríveis. Conseguiu até fazê-lo em uma praça pública, encoberto por sua mochila. E de outra feita, experimentou imensa liberdade no terraço deserto de seu prédio, lançando seu esperma ao sabor do vento refrescante.
Quase já não havia lugar que não houvesse experimentado. Só não havia conseguido ainda no elevador por haver lá uma câmera para inspeção. Não eu não houvesse tentado, faltava-lhe coragem suficiente. Temia a língua implacável do porteiro. E num dia destes, de horas de tentativas frustradas, conheceu a moça ruiva do décimo terceiro andar. Moça de família que preservava a moda antiga. Já nos primeiros encontros fez saber que era virgem e decidida a entregar-se somente após o casamento. Oferecia contudo, a profundidade de alma que em seu enamorado era tão ausente. Através dela, ele conheceu o amor... Desde então, seus prazeres já não lhe faziam o menor sentido...

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

Hoje, apresento-lhes outro conto. Uma história realística, possível e crua. Como é caracteristico dos contos que o Mário escreve.
Com a narrativa do autor, fica fácil "ver" toda a cena, com seus personagens em todos os pormenores.
Um texto forte, sem tornar a leitura pesada. Um enredo surpreendente sem a pretensão de levar ao ouvinte qualquer "lição de moral" ou coisa que o valha.

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Esfregava-se, pacientemente ao balançar característico dos coletivos em trajeto esburacado contorcia-se baixinho, com gemidos imperceptíveis espremidos entre estranhos familiares passageiros. Hora e meia de fulminantes orgasmos, ponto a ponto, cheiro a cheiro, corpo a corpo. Quando encoxada demorava-se mais, às vezes deixava-se nos braços fortes de algum por dois ou até três pontos para além do seu, depois descia, culpada pelo atraso provocado em função de um gozo impensado. Culpava-se, mas só às vezes, de nunca ter tido coragem de romper as paredes condicionais de seu sexo, amargamente volvia estes pensamentos e segurava-se firme no próximo corrimão de ônibus da próxima volta-do-trabalho. Aliás, foi Dna.Edite a responsável pelo trabalho na “casa de família”. A mãe fez de novo como sempre fazia, pegou-a pelo braço e levou-a a assistente social como quem dizia: - “edite” novamente esta minha desgraça, não vou mais acaricia-la com o MEU pão de todo dia. Um empreguinho não lhe cairia nada mal, editava-a Dna.Edite. Casa de família, casal de velhinhos já assexuados pra que não se corra o risco da prenhice indesejada – sabe como é essa burra juventude – um salariozinho bacana que vai ajudar muito à senhora Dna. Mãe, etc., etc., etc.
A caminho de casa, naquele dia, pensou novamente nesta passagem de sua vida. No caminho que era seu fim de prazer. No seu prazer incompartilhado. Na falta e fartura duas vezes por dia vividas nas esfregações dos coletivos. Nos orgasmos gélidos dos ferros dos bancos. Nas entranhas que ardiam e aquietavam-se três ou quatro vezes por viagem. Quis morrer!
Afeiçoou-se certo dia por uma rapariga magra com rosto de anjo e foi sua primeira grande paixão e seu primeiro desencontro amoroso. Entremeio a delírios orgásmicos, seios com costas, boca com nuca, respiração ofegante, quase escandalosa, um grito lhe feriu os ouvidos como lanças agudas a atravessarem-lhe o coração - MORTE ÀS LÉSBICAS MALDITAS! Infinito caminhar até à porta de saída demorada qual o tempo da criação do universo para se abrir e faze-la sumir. Neste dia não foi trabalhar. Foi à praça para ser queimada em público pelo sol que às nove da manhã já se ardia em brasas. Suou frio, calafrio! Mudou de horário no trabalho. Uma hora mais cedo de castigo para a indulgência de si própria. Nunca mais amoleceu seu coração. Secou-o àquele sol ao ponto da carne seca. Iria conserva-lo assim.
Pôde sentir de outra vez o rijo e imponente cheiro de um gigante a tremer entre suas nádegas em busca desesperada de atenção. Fez-se de morta diante daquela novidade embora estivesse gostando - passou do ponto por mais de uma vez, porém. Melou-se com o gozo alheio. À noite, pela primeira vez, refazendo aquele filme, tocou-se, acariciou-se, machucou-se, desmanchou-se, chorou-se, amargurou-se, olhou-se e era só escuridão e noite.
Ontem, resolveu voltar a pé, sabia que seriam horas de caminhada noite adentro, arriscou. Caminhava passo a passo lentamente sem se importar com a noite. Pensava na vida sem saber que era sobrevida, sofrida, desvivida, desviada de seu curso. Pensava na falta de carícias ofertada por todos aos quais pôde conhecer. O pai com o qual sonhou e nunca teve, nem em registro de nascimento. A mãe que dedicava toda sua carne ao marido hostil. O padrasto a encarar suas pernas com babas a escorrer-lhe pelos cantos da boca. O homem colocado diante de si por um deus maldito qualquer, com olhos de fogo que não iluminavam a rua escura e deserta. Uma bofetada acariciante e mais carícias das unhas que lhe rasgavam a roupa e a pele. Nunca estivera tão próxima de alguém. Nunca ninguém estivera tão dentro dela. Teve tempo de gritar mas só gritou ao tempo do imenso prazer que lhe invadia. Vadia! Puta! Carícias para os ouvidos, lembranças de uma infância distante. Queria que seu príncipe se tivesse demorado mais, pensou que talvez não tivesse esse direito, chorou como criança. Desapareceu de si com os últimos golpes de carícia metálica de um punhal que a muitas outras haviam acariciado.

(Carícias - Mário Deganelli)

terça-feira, 24 de novembro de 2009

Vaidade



Golfinho




– Nem ligo! Se sou meio delicado, se é como dizem, que sou fresco, isso é problema meu! – estes pensamentos tinha-os de resposta pronta e engolia-os diariamente como que por prescrição médica, acompanhados por um cálice médio de rancor a alimentar sua úlcera ainda inexistente mas já potencialmente letal.
Afugentava as mulheres em no máximo dois encontros e depois culpava a idade, já que preferia as adolescentes. Vez ou outra alguma delas insistia e na manhã seguinte, discretamente era exibida como manchas de sangue no lençol aos poucos amigos que ainda o toleravam, para que atestassem mais uma das suaves prestações de sua lenta perda da virgindade.
Mas, para todos os efeitos, procurava mostrar-se sério e metódico... e sempre metia os pés pelas mãos! Extrema rigidez disfarçada em aparente flexibilidade.
Numa festa, para a qual se auto-convidou (como já era o costume), os três copos de vinho degustados lentamente não foram suficientes para tira-lo do controle de si mesmo. Mas Lúcio Eros, sim! Rapaz interessantíssimo, de rosto angelical, que conheceu logo no início da noite e que não lhe saiu do pensamento durante boas semanas.
Sentira em si um furor lascivo absolutamente inédito. Daí por diante os sonhos inevitáveis de quase todas as noites passaram a ser um só. Mas ora era lido como pesadelo, em noites de negações, ora como arrebatadores momentos de prazer, nos dias em que se deseja desligar-se do mundo concreto das convenções e continuar mergulhado na liberdade de ser o que a alma deseja.
(Vaidade - Mário Deganelli)





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quinta-feira, 25 de junho de 2009


A Borboleta e o Girassol de Mário Deganelli
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Futuro do Pretérito Perfeito
Amanhã ?!
...
Iria acordar às 6 e 20
Tomar café preto na padaria da esquina
Correr atrás do ônibus
Torcer para não ficar preso no trânsito
Ler durante a viagem
Se embolar nas tarefas da manhã com breve pausa para dois bocejos às 9
Prestar contas de seu último mês até as 11 e meia
Ligar pro filho pra cinco minutos de declaração de amor
Lembrar-se do amor ao trabalho
Pausar para almoço às 12
Comer em 25 minutos
Digerir em 10
Trabalhar

Lembrar-se da fadiga às 15 e 35 e também das contas via “internet bank” e esquecer da cervejinha com os amigos na próxima sexta
Trabalhar
Estender-se até às 8 pra adiantar o dia seguinte ...

Enquanto planejava pegou metrô para chegar mais rápido
Correu para atravessar a avenida a infinitos 30 metros da faixa de pedestres,
Foi atropelado pelo taxista atordoado pelo passageiro que corria para não se atrasar para a importante reunião de negócios ... TODOS PARARAM PRA OLHAR!!!

Ambos não viam a hora de chegar em casa e se olhar no espelho ...


Mário Deganelli