A maior descoberta de minha vida

A maior descoberta de minha vida


Descobri que o que sou mesmo é “INVENTOR”

Invento consertos e soluções

Invento músicas, letras e instrumentos

Invento artes plásticas e reinvento coisas do lixo

Invento poesias e poéticas...

Invento tanto, todos os dias,

Que desconfio ser eu minha maior invenção.

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Quiromancia


sábado, 11 de fevereiro de 2012

As drogas e suas questões



Por Mário Deganelli

Os motivos pelos quais a pessoa se torna dependente do uso de drogas, sejam elas quais forem (licita ou ilícitas), estão muito mais ligados à falta de recursos – internos e/ou externos – do que às pretensas teorias que as apontam como vilãs-monstros que pode pegar qualquer um de nós. Não estou aqui negando o poder destrutivo das drogas e nem que umas tem mais poder viciante que outras. Estou atentando ao poder irreal e oportuno que se tem dado a elas. Falo em oportunismo porque é muito cômodo e conveniente legar ao dependente a culpa de ter sido fraco diante deste tal poder e ter se deixado capturar por ele numa relação que envolve apenas dois personagens – a droga e o indivíduo.
Em primeiro lugar um indivíduo ser humano, apesar de o termo aludir a isto, não é um ser que se constituiu individualmente; ao contrário, foi através de inter-relações que se formou e chegou até determinado ponto de sua história. Quando digo inter-relações o faço no sentido mais ampliado deste termo, ou seja, desde as relações que foram se estabelecendo em seus meios de convívio social até às que foram sendo estabelecidas com o consumo em geral. Só para explicar melhor sobre o quê estou falando basta pararmos quinze minutos de uma tarde qualquer e acompanharmos a programação das redes abertas de televisão para constatarmos a imensa oferta de soluções e receitas para lidar com os mais variados tipos de situações e problemas do nosso cotidiano – meios para emagrecer (relação mal resolvida com o que se come e com como se gasta a energia adquirida), meios para aprender a se relacionar com o marido, com a esposa, com o vizinho de condomínio, com os filhos, com o animal de estimação, com o sol, com o computador e tantas outras ajudas. Diante disso, fico a pensar se na verdade os seres humanos fracos e doentes são mesmo os dependentes, ou, pelo menos, “só” eles. Quando faço essa experiência, assistindo, inclusive programações que se julgam sérias e científicas tenho a nítida impressão (ou constatação) de que vivemos em uma dita sociedade que não prepara os seus indivíduos para a autonomia e para a responsabilidade em seus atos e escolhas. Ao contrário, parece-me oportuno, volto a falar, que os indivíduos se enxerguem incapazes de conduzir-se por suas próprias escolhas, para que as decisões que se pautam em interesses avessos à sua própria vida não sejam questionados, já que este empoderamento não lhe foi permitido. Daí é que criar monstros fictícios e dar a eles poderes extraordinários torna-se uma artimanha extraordinária. Não há algo ou alguém localizado contra quem lutar... o que há é um ser abstrato indestrutível contra o qual você pode apenas ficar muito alerta, já que a próxima vítima pode ser você ou alguém que você goste muito. E enquanto toda a sua preocupação está dividida entre correr atrás de suprir suas inapetências sociais ou lutar contra titãs maldosos que lhe roubarão a alma, outros grupos de seres humanos, localizados um pouco acima deste “bololô” social, engordam cada vez mais seus patrimônios e poderes de decisão.
Aliás, voltando à questão das drogas, parece-me que na história da humanidade, nunca lidamos de maneira tão imbecil com elas. Em sua imensa maioria as diversas civilizações e grupos de seres humanos que já existiram a usaram para o crescimento e expansão de suas percepções, sendo elas importante fonte alimentadora de conhecimentos e criações. Mas na nossa sociedade pós-moderna-sabe-tudo ela virou caso de polícia e/ou hospício. Vamos começar a falar sério ou vamos continuar tratando destas questões como conteúdos de um programa vespertino televisivo?

sábado, 30 de julho de 2011

Manifesto sobre a vida do artista por Marina Abramovic:

1 a conduta de vida do artista:
- o artista nunca deve mentir a si próprio ou aos outros
- o artista não deve roubar idéias de outros artistas
- os artistas não devem comprometer seu próprio nome ou comprometer-se com o mercado de arte
- o artista não deve matar outros seres humanos
- os artistas não devem se transformar em ídolos
- os artistas não devem se transformar em ídolos
- os artistas não devem se transformar em ídolos
2 a relação entre o artista e sua vida amorosa:
- o artista deve evitar se apaixonar por outro artista
- o artista deve evitar se apaixonar por outro artista
- o artista deve evitar se apaixonar por outro artista
3 a relação entre o artista e o erotismo:
- o artista deve ter uma visão erótica do mundo
- o artista deve ter erotismo
- o artista deve ter erotismo
- o artista deve ter erotismo
4 a relação entre o artista e o sofrimento:
- o artista deve sofrer
- o sofrimento cria as melhores obras
- o sofrimento traz transformação
- o sofrimento leva o artista a transcender seu espírito
- o sofrimento leva o artista a transcender seu espírito
- o sofrimento leva o artista a transcender seu espírito
5 a relação entre o artista e a depressão:
- o artista nunca deve estar deprimido
- a depressão é uma doença e deve ser curada
- a depressão não é produtiva para os artistas
- a depressão não é produtiva para os artistas
- a depressão não é produtiva para os artistas
6 a relação entre o artista e o suicídio:
- o suicídio é um crime contra a vida
- o artista não deve cometer suicídio
- o artista não deve cometer suicídio
- o artista não deve cometer suicídio
7 a relação entre o artista e a inspiração:
- os artistas devem procurar a inspiração no seu âmago
- Quanto mais se aprofundarem em seu âmago, mais universais serão
- o artista é um universo
- o artista é um universo
- o artista é um universo
8 a relação entre o artista e o autocontrole:
- o artista não deve ter autocontrole em sua vida
- o artista deve ter autocontrole total com relação à sua obra
- o artista não deve ter autocontrole em sua vida
- o artista deve ter autocontrole total com relação à sua obra
9 a relação entre o artista e a transparência:
- o artista deve doar e receber ao mesmo tempo
- transparência significa receptividade
- transparência significa doar
- transparência significa receber
- transparência significa receptividade
- transparência significa doar
- transparência significa receber
- transparência significa receptividade
- transparência significa doar
- transparência significa receber
10 a relação entre o artista e os símbolos:
- o artista cria seus próprios símbolos
- os símbolos são a língua do artista
- e a língua tem que ser traduzida
- Às vezes, é difícil encontrar a chave
- Às vezes, é difícil encontrar a chave
- Às vezes, é difícil encontrar a chave
11 a relação entre o artista e o silêncio:
- o artista deve compreender o silêncio
- o artista deve criar um espaço para que o silêncio adentre sua obra
- o silêncio é como uma ilha no meio de um oceano turbulento
- o silêncio é como uma ilha no meio de um oceano turbulento
- o silêncio é como uma ilha no meio de um oceano turbulento
12 a relação entre o artista e a solidão:
- o artista deve reservar para si longos períodos de solidão
- a solidão é extremamente importante
- Longe de casa
- Longe do ateliê
- Longe da família
- Longe dos amigos
- o artista deve passar longos períodos de tempo perto de cachoeiras
- o artista deve passar longos períodos de tempo perto de vulcões em erupção
- o artista deve passar longos períodos de tempo olhando as corredeiras dos rios
- o artista deve passar longos períodos de tempo contemplando a linha do horizonte onde o oceano e o céu se encontram
- o artista deve passar longos períodos de tempo admirando as estrelas
no céu da noite
13 a conduta do artista com relação ao trabalho:
- o artista deve evitar ir para seu ateliê todos os dias
- o artista não deve considerar seu horário de trabalho como o de funcionário de um banco
- o artista deve explorar a vida, e trabalhar apenas quando uma idéia se revela no sonho, ou durante o dia, como uma visão que irrompe como uma surpresa
- o artista não deve se repetir
- o artista não deve produzir em demasia
- o artista deve evitar poluir sua própria arte
- o artista deve evitar poluir sua própria arte
- o artista deve evitar poluir sua própria arte
14 as posses do artista:
- os monges budistas entendem que o ideal na vida é possuir nove objetos:
1 roupão para o verão
1 roupão para o inverno
1 par de sapatos
1 pequena tigela para pedir alimentos
1 tela de proteção contra insetos
1 livro de orações
1 guarda-chuva
1 colchonete para dormir
1 par de óculos se necessário
- o artista deve tomar sua própria decisão sobre os objetos pessoais que deve ter
- o artista deve, cada vez mais, ter menos
- o artista deve, cada vez mais, ter menos
- o artista deve, cada vez mais, ter menos
15 a lista de amigos do artista:
- o artista deve ter amigos que elevem seu estado de espírito
- o artista deve ter amigos que elevem seu estado de espírito
- o artista deve ter amigos que elevem seu estado de espírito
16 os inimigos do artista:
- os inimigos são muito importantes
- o Dalai Lama afirmou que é fácil ter compaixão pelos amigos; porém, muito mais difícil é ter compaixão pelos inimigos
- o artista deve aprender a perdoar
- o artista deve aprender a perdoar
- o artista deve aprender a perdoar
17 a morte e seus diferentes contextos:
- o artista deve ter consciência de sua mortalidade
- Para o artista, como viver é tão importante quanto como morrer
- o artista deve encontrar nos símbolos da sua obra os sinais dos diferentes contextos da morte
- o artista deve morrer conscientemente e sem medo
- o artista deve morrer conscientemente e sem medo
- o artista deve morrer conscientemente e sem medo
18 o funeral e seus diferentes contextos:
- o artista deve deixar instruções para seu próprio funeral, para que tudo seja feito segundo sua vontade
- o funeral é a última obra de arte do artista antes de sua partida
- o funeral é a última obra de arte do artista antes de sua partida
- o funeral é a última obra de arte do artista antes de sua partida

segunda-feira, 20 de junho de 2011

Insetos em volta da lâmpada

Só Calmo

Canto um blues tranqüilo
Sussurro meu canto quase em sigilo
Em lugar daquilo que outrora era pranto

Meu coração hoje está sossegado
Falo baixo, mas não fico calado
Sou mais melodia que grito desesperado

Então deixe soar a voz e o tambor preto
Que meu coração bate kêto

sexta-feira, 27 de maio de 2011

Produto

Rótulos e embalagens
cada vez mais sofisticados
engodos
engordas
enganos
entulhos
entalhos numa cabeça
de madeira petrificada
produtos esculpidos com as ferramentas das necessidades que não precisam

quinta-feira, 26 de maio de 2011

Delírio e Morte

Passou a mão pelos cabelos – estavam ensebados. Pelo número de vezes que dormiu e acordou, desde o último banho, calculou quinze dias. Devia ter aproveitado melhor aquela oportunidade, seu desleixo agora era denunciado pela resistência oposta a seus dedos rumo ao couro cabeludo (há muito carente de massagens ternas). Breve momento de lucidez (ou de falta de clareza, pensaria acerca de outros da mesma laia em tempos áureos de exercício de seu mestrado em filosofia na universidade do estado). Voltou-se para Flor, sua cadela e companheira; a este ponto já havia recuperado seu habitual estado psíquico alucinatório. Observou-a atentamente e ouviu dela um grito de clamor – não tinham que aturar, nem ela nem ele, os olhares todos a lhe atribuírem poderes de rei – nobre sim, como todos de seu totem! – Mas isso não haveria de ser motivo suficiente para tanta pompa e tratamentos diferenciados. Levantou-se e gritou um som extraído do desespero: – Me deixem em paz, eu nada tenho a lhes dizer! – deitou-se novamente e dormiu. Sonhou com o reinado que lhe fora concedido por hereditariedade e que há muito ficara sem seu soberano, já que resolvera explorar terras longínquas. Em seu sonho também estava seu povo, tão desprovido do conforto do qual agora desfrutava descaradamente.
Acordou já decidido a voltar para sua gente, para seu reino.
Ao se preparar para a insólita viagem quis somente o necessário. Escolheu dentre suas posses um casaco, seu cinto (de corda de sisal), sua moringa (de garrafa PET) e seu cajado de cedro (de cabo de vassoura de piaçava). Chamou, em ordem única, sua companheira e partiram.
Cada novo lugar e cada novo rosto diante de seus olhos eram novos mundos a serem explorados, ultrapassados. Depois de algum caminhar deteve-se estupefato. Conseguiu suportar somente alguns instantes antes de se precipitar violentamente em direção ao sujeito que lhe afrontava com gestos obscenos, livro de magias em punho, discursando a respeito de um deus que não era o seu. Desferiu-lhe golpes certeiros e ininterruptos com seu cajado, ferindo-lhe o crânio e os braços. Foi contido por súditos uniformizados que chegaram em carruagens cinzentas vindas não sabia de onde. Jogaram-no na masmorra. Bateram-lhe. Aplicaram-lhe choques elétricos por todo o corpo. Fizeram-no retornar de seu mundo de rei rebelado. Voltou a ser Lúcido dos Anjos – personagem de seus pesadelos. Voltou a ser escravo. Voltou a ser o professor de filosofia. Voltou a ser RG e CPF. Voltou a perder-se. Adormeceu.
Um beijo terno em sua face fê-lo despertar. Sua companheira agora já não era Flor – a princesa da qual guardava vagas lembranças – era Lírio, uma bela mulher de plástico, pensava. Por mais que se esforçasse (e nem era o caso) jamais alcançaria a profundidade no olhar da qual esbanjava Flor. Entorpecia, sim, mas pela feitiçaria de sua beleza vazia e passageira. Pelos olhos de Flor via-se a grandeza da alma do universo; via-se Deus. Essas reflexões o entristeceram.
Estava atordoado, tudo à sua volta era branco e incomodamente quieto. Só a ansiedade de sua esposa quebrava o mórbido silêncio daquele lugar: - te procuraram por toda a parte, achávamos que havia morrido! – desabafou histérica.
Talvez tivesse sido melhor... Talvez houvesse mesmo morrido. Talvez aquela “consciência” fosse uma nova encarnação no mesmo corpo. Lembrou-se de suas habilidades filosóficas.
- seu filho há meses não dorme e não come direito. Tem tido pesadelos horríveis!
Era verdade, tinha um filho! De herança deixou-lhe os pesadelos, pensou. Entristeceu-se um pouco mais. Tentou lembrar-se de outros detalhes de sua vida mas algo dentro de si negou-se a levar tal empreitada adiante. Desistiu, dormiu, surtou. Era seu reino novamente lhe chamando. Era seu povo clamando por seu soberano pródigo. Era preciso libertar-se.
Voou pela janela, para junto de sua verdadeira companheira. Novamente estavam na estrada. Saltitaram leves e felizes pelas mais fabulosas trilhas, em fantásticas florestas, ora de vidro, ora de pedras, ora de luzes. Desejou do fundo de sua alma não ter mais aqueles sonhos com aquela família de plástico atormentando-lhe os pensamentos. A liberdade não está na dor! Está onde sempre esteve, seja alcançada ou não. Mirou sua alegre companheira  sem uma gota sequer de consciência, invejou-a.
Beijos molhados a removerem as remelas de seu olho – assim foi despertado naquela tarde nublada de uma estação qualquer. Mais uma vez recomeçara, lembrou-se de seu reino e de seu reinado distantes, teve preguiça de continuar. Calou sua consciência por não conseguir reconhecê-la em sua geografia.
Da próxima vez que dormisse ou acordasse (já não sabia mais) não voltaria a se deparar com aquelas atrocidades. Como pode alguém suportar tamanha tortura: família, filhos, domingos encaixotados, empoltronados, felicidades fabricadas... NUNCA!
Caminhou durante três dias mais. Deparou-se finalmente com o portal, com inscrições claras em seu arco superior, como em suas visões: “Reino de paz eterna”, entrou. Todos mortos! Milhares e milhares de túmulos. Chorou, estava fraco, as lágrimas escassas... Teve forças para entregar suas últimas posses ao barqueiro das águas ausentes. Uma cova aberta o aguardava. Os beijos molhados de sua companheira foram ficando cada vez mais distantes. Tudo foi se transformando progressivamente em uma espécie de programa televisivo adornado por flash-backs de alucinações controladas por minúsculas pílulas, administradas regularmente de tempos em tempos. Do lado de fora, somente um corpo inerte teimando em manter-se funcionando.